Um clássico de 2014, filmado em menos de um mês, com amarelização extrema (certamente filmado no México!). Whiplash apresenta a vida de um jovem baterista com um sonho (entranhado ou espontâneo?) de ser um dos grandes bateristas do jazz.
A maior qualidade do filme é conseguir traduzir o sofrimento e terror por meio do ambiente e caracterização. Neiman vive cada batalha em busca de superar os últimos detalhes para alcançar a perfeição. Fletcher, seu professor e figura fundamental em sua ascensão, também impacta o ambiente e pessoas com seu método de ensino
Fletcher (e, posteriormente, Neiman) acredita que encontrar e desenvolver o “próximo dos grandes” exige um esforço além do psicologicamente aceitável e pratica sua metodologia duvidosa. Em certo momento, descobrimos até que um caso de sucesso com um fim trágico fruto dessa nociva prática.
O filme encena o decorrer da história de Neiman sob a tutela de Fletcher por meio dos obstáculos encontrados pelo baterista. Cada um deles é ressaltado no filme por meio de cores. Seu rival baterista tem uma jaqueta e camiseta vermelha em outro momento do filme. O caminhão que colide com seu carro alugado, não coincidentemente, também é vermelho. A cor é fundamental. O vermelho, além de conquistar o foco do telespectador, simboliza seus momentos de luta pelo sucesso. Seu sangue também derramado sobre a bateria e trajes em sinal da limitação que seu próprio corpo impôs-lhe.
Ainda no tema da cor, como se o tom amarelado não fosse suficiente, amarelo esse que mimetiza os tons de bares de jazz, embora cause desconforto no telespectador, a tonalidade das roupas de Nieman também importam. No início e no decorrer do filme, o uso de roupas brancas simboliza momentos em que ele estava sob o domínio de outrém, sem poder ou determinação, enquanto a adoção dos trajes escuros demonstra as tentativas de Neiman de ter controle e domínio do seu curso, assim como Fletcher sempre com seu costume e camiseta preta. Não à toa, na última cena, Neiman remove seu paletó e conquista seu sucesso tocando “Caravan” com a camisa preta.
Ainda sobre o final, há quem diga que ele apresenta a vitória de Neiman, uma vez que claramente ele é mostrado como um dos grandes e vitorioso sobre o antagonista Fletcher. Porém, Neiman se torna exatamente o que Fletcher queria, mesmo com os traumas promovidos por Fletcher. Agora, carregará este fardo nas costas, assim como aquele outro grande talento carregou, mas não suportou e suicidou.
Assim, Whiplash não retrata uma vitória grandiosa, mas uma vitória pírrica. Neiman atinge uma grandeza que sequer era a mesma que queria e esperava quando aceitou treinar com Fletcher. Representado pelos aplausos após “Caravan”, o filme nos indaga: qual o limite da nossa autodestruição em prol de atingirmos a excelência no que almejamos?